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Volume 25, Fascículo II   Lesões arteriais potencialmente mortais associadas a fraturas do acetábulo: A propósito de um caso clínico
Lesões arteriais potencialmente mortais associadas a fraturas do acetábulo: A propósito de um caso clínico
  • Caso Clínico

Autores: Marta Maio; Magda Gomes; Bruno Barbosa; Pedro F. Sousa; Rui Ramos; Carlos Cerca; António Figueiredo
Instituições: Serviço de Ortopedia do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra, EPE; Serviço de Ortopedia e Traumatologia, Centro Hospitalar de Trás os Montes e Alto Douro
Revista: Volume 25, Fascículo II, p129 a p135
Tipo de Estudo: Caso Clínico
Nível de Evidência: Nível V

Submissão: 2016-03-14
Revisão: 2017-01-15
Aceitação: 2017-07-20
Publicação edição electrónica: 2017-07-28
Publicação impressa: 2017-07-28

INTRODUÇÃO

É tradicional considerar que o risco de hemorragia pélvica grave está associado a fraturas pélvicas mecanicamente instáveis, enquanto que nas fraturas pélvicas estáveis ou acetabulares, é tido como muito pequeno1,2,3,9,10.

A lesão vascular nas fraturas pélvicas instáveis seria, em 90% dos casos, de natureza venosa e em 10%, de natureza arterial7,8. As hemorragias venosas habitualmente estabilizam com a reposição do volume, e com a estabilização mecânica da fratura. As hemorragias arteriais não respondem a estes meios e são responsáveis pela maioria dos choques hipovolémicos incontroláveis e consequentemente, pela maior parte das mortes5,7,10,12.

O uso crescente da angiografia/embolização e da angio-TAC abdomino-pélvica na avaliação destes traumatizados tem-nos mostrado uma realidade diferente1,9. A lesão arterial é mais frequente do que se pensava. Não se restringe às fraturas pélvicas instáveis, estendendo-se às fraturas pélvicas estáveis e às fraturas acetabulares2,5,7.

As lesões arteriais pélvicas, se não identificadas e tratadas, podem ter várias consequências: morte por hipovolémia, anemia continuada, isquemia tecidular e interferência com a cirurgia aberta2,5,8,11.

Em fraturas acetabulares há risco potencial de lesão, sobretudo das artérias nadegueira superior e obturadora2,4,7,12. A artéria nadegueira superior assume uma particular importância, pela frequência com que é lesada por topos ósseos cortantes, de fraturas com desvio que atinjam esta área. Trata-se de um vaso de considerável calibre e elevada pressão que no seu trajeto, de dentro para fora da pélvis, está em íntimo contato com o osso da grande chanfradura ciática2,4,12.

A embolização, precedida pela angiografia, é a forma ideal de tratamento das lesões arteriais, com aplicação crescente no abdómen e na pélvis. No entanto, trata-se de uma técnica apenas usada em alguns hospitais, e dificilmente usada como técnica de rotina1,3,5,6,7,8,10.

Recentemente tem ganho popularidade a angio-TAC abdomino-pélvica nos protocolos de avaliação dos politraumatizados que, entre outros objetivos, pode servir para seleção de pacientes para arteriografia/embolização1,5,12.

Algumas hemorragias arteriais acabam por estabilizar, sem outra necessidade que não seja a reposição de volume. Tal deve-se aos processos naturais de auto-hemostase, nomeadamente a constrição do topo arterial e a formação do coágulo. Se durante o tratamento cirúrgico aberto da fratura houver interferência com a zona da lesão arterial, a hemorragia poderá ser reativada8.

Apresenta-se um caso de fratura acetabular com bordos cortantes e desviados a invadir a grande chanfradura ciática, que passou, em fase urgente, por um quadro de choque hipovolémico tido como inexplicável e que entretanto estabilizou espontaneamente após a administração de fluídos e concentrado de eritrócitos. Este episódio não foi devidamente interpretado e valorizado. Mais tarde um cirurgião que o desconhecia, ao tratar cirurgicamente a fratura, deparou-se com uma grande hemorragia proveniente da área da artéria nadegueira superior. A realização de procedimentos de controlo de dano e a ativação imediata da radiologia de intervenção permitiram o controlo desta perigosa hemorragia.

CASO CLÍNICO

Doente com 53 anos, género masculino, trabalhador da construção civil, sem antecedentes patológicos de relevo, que sofreu um acidente de trabalho em junho de 2015, desmoronamento de muro de cerca de 2 metros sobre o membro inferior direito. À entrada no serviço de urgência, foi admitido diretamente na sala de emergência, encontrava-se hemodinamicamente instável, com necessidade de fluidoterapia intensiva, ácido tranexâmico e quatro unidades de concentrado de eritrócitos para manter estabilidade.

Ao exame objetivo apresentava ligeiro encurtamento do membro inferior direito, incapacidade funcional do mesmo, sem défices neurovasculares aparentes. A radiografia da bacia mostrava fratura-luxação do acetábulo à direita, foi realizada imediata redução na sala de emergência. (Figura 1)

Efetuada tomografia computorizada toracoabdominopélvica com contraste, diagnosticada fratura transversa do acetábulo (segundo a classificação de Judet-Letournel), desviada com invasão da grande chanfradura ciática, de referir ainda hematoma extraperitoneal supravesical, sem aparente rutura de bexiga. (Figura 2). Não foram encontradas outras lesões ortopédicas ou não ortopédicas.

Foi transferido para a Unidade de Cuidados Intensivos para vigilância do choque hemorrágico/hipovolémico, onde fez reposição de volume e duas unidades de concentrado de eritrócitos, com evolução favorável e transferência para a enfermaria após 48h. Sem intercorrências a registar durante esse período. A instabilidade hemodinâmica e anemia iniciais foram interpretadas como consequência da fratura acetabular grave.

Programada a intervenção cirúrgica 15 dias após a fratura, para redução aberta e osteossíntese. Abordagem de Kocher-Lagenbeck e identificação de foco de fratura, durante o desbridamento do mesmo, ocorrência de hemorragia abundante, foi efetuado tamponamento imediato e encerramento temporário da ferida.

Contactada radiologia de intervenção, o doente foi transferido para a sala de hemodinâmica, sendo realizada angiografia arterial, onde foi constatada rutura da artéria nadegueira superior e feita embolização endoarterial transcutânea por coil do vaso sangrante. Encerramento da ferida após remoção do tamponamento e verificação de ausência de hemorragia ativa. (Figuras 3 e 4)

No pós-operatório admitido numa unidade de cuidados intermédios para vigilância, por apresentar à entrada hemoglobina de 6,8g/dl realizou 2 unidade de glóbulos rubros, sem novas perdas observáveis. Foi transferido para a enfermaria após 48h.

Neste contexto optou-se por realizar tratamento conservador, colocada tração esquelética na tíbia proximal durante 4 semanas, iniciando nessa altura levante para cadeira e deambulação sem carga. (Figura 5)

O doente foi encaminhado posteriormente para consulta da companhia de seguros para posterior seguimento.

DISCUSSÃO

Hemorragias arteriais pélvicas são potencialmente mortais e mais frequentes do que até há pouco tempo atrás se pensava. As suas consequências podem ir da morte na urgência ou cuidados intensivos, a surpresas inesperadas durante a cirurgia aberta2,4,7,9,10.

Instabilidades hemodinâmicas ou anemias continuadas, aparentemente sem explicação, num contexto de fraturas pélvicas ou acetabulares, com localização e morfologia próprias, deverão levar à suspeita de lesão arterial. A angio-TAC abdomino-pélvica é o método mais prático para a sua confirmação1,5,8,9,11,12. A embolização, precedida de arteriografia, é o método de eleição para tratamento destas lesões1,5,7,10,12.

Por vezes os mecanismos de auto-hemostase funcionam com sucesso e depois de um período de desequilíbrio hemodinâmico os pacientes estabilizam. A lesão pode desta forma passar facilmente despercebida8.

Torna-se importante reconhecer a possibilidade de lesão arterial oculta quando surge um doente com uma fratura acetabular com extensão para a grande chanfradura ciática2. Nos casos em que há um grande desvio dos topos ósseos em que se prevê cirurgia, para tratamento definitivo da fratura, uma angio-TC e angiografia deverá ser feita previamente2.

Desta forma poderão ser evitadas mortes ou hemorragias inesperadas durante a cirurgia de redução e fixação interna da fratura. A hemorragia pode levar à morte em questão de minutos ou horas por choque hipovolémico incontrolável2,8,9. A hemorragia de um vaso importante, como é o tronco principal da artéria nadegueira superior, durante uma cirurgia de fratura acetabular é uma situação assustadora e potencialmente mortal se não forem seguidas as condutas de controlo de dano e não houver disponibilidade próxima de meios técnicos para embolização2,10.

No caso apresentado apesar da instabilidade hemodinâmica inicial, a pronta intervenção médica, com reposição de volume, administração de ácido tranexâmico e concentrado de eritrócitos permitiram que os mecanismos fisiológicos de auto-hemostase funcionassem, passando despercebida a lesão arterial da artéria glútea superior. Se esta fosse suspeitada, a realização de angio TC e/ou angiografia poderiam ter identificado a lesão e evitada a hemorragia intraoperatória. O conhecimento dos novos dados relativos às lesões arteriais e implementação de protocolos de trauma, no âmbito das fraturas pélvicas e acetabulares, poderá permitir poupar vidas ou evitar sustos cirúrgicos como o apresentado no caso descrito neste artigo4.

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