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Volume 25, Fascículo III   Luxação traumática da anca na criança: caso clínico e breve revisão bibliográfica
Luxação traumática da anca na criança: caso clínico e breve revisão bibliográfica
Luxação traumática da anca na criança: caso clínico e breve revisão bibliográfica
  • Caso Clínico

Autores: António Gonçalves; Ricardo Simões; Sara Monteiro; João Gonçalves; Virgílio Paz Ferreira; Fernando Carneiro; António Rebelo
Instituições: Serviço de Ortopedia do Hospital do Divino Espirito Santo, Ponta Delgada, São Miguel, Açores
Revista: Volume 25, Fascículo III, p229 a p235
Tipo de Estudo: Caso Clínico
Nível de Evidência: Nível V

Submissão: 2017-05-18
Revisão: 2017-06-21
Aceitação: 2017-08-19
Publicação edição electrónica: 2017-09-05
Publicação impressa: 2017-09-05

INTRODUÇÃO

A luxação traumática da anca nas crianças é uma lesão rara com uma incidência de 0,8 casos por milhão/ano, sendo uma emergência ortopédica. Constitui menos de 10% de todas luxações traumáticas da anca e apenas 5% de todas as luxações de anca ocorrem abaixo dos 14 anos de idade. É extremamente rara em crianças menores de 5 anos de idade1,2,3,4,6,7,8,9,10.

A luxação posterior correspondente a 80% dos casos3,5,6,7,9,11, sendo mais comum no sexo masculino (4:1) podendo ocorrer em qualquer faixa etária, com picos de incidência entre os quatro e sete anos e entre os onze e quinze anos1,2,3,5,6,7,8,10,11.

A luxação traumática da anca em idade pediátrica pode resultar de traumas de baixa energia, estando associados à flexibilidade acetabular e laxidão ligamentar, fato observado nas crianças mais jovens4,5,8,9,10,11.

Nas crianças maiores ou adolescentes, por calcificação da cartilagem triradiada e diminuição de laxidão, torna-se necessária maior energia para a luxação. Nesses casos podem ocorrer concomitantemente fraturas femorais1,2,5,11 .

Clinicamente a luxação posterior apresenta incapacidade para marcha e deformidade típica em flexão, adução e rotação interna da coxa1,7,11.

A avaliação radiográfica é essencial para confirmar o diagnóstico, revelar o tipo de luxação e descartar fraturas associadas1,2,5,7,9,11.

Torna-se importante uma rápida resolução com recurso a redução incruenta sob anestesia, minimizando as potenciais complicações, nomeadamente as precoces como fraturas associadas (=40%), a lesão neurológica ou vascular (=25%)2,5,6,7,8,9,10,11 e complicações tardias como episódios de reluxação, condrólise, necrose avascular (incidência de 8% a 10%),  e coxartrose degenerativa (identificadas alterações clínicas ou radiológicas em follow-up até idade adulta em cerca de 36%)1,2,6,7,8,10. As complicações tardias estão associadas ao atraso da redução sendo fatores de mau prognóstico a permanência da luxação por mais de seis horas, o atraso na redução (aumenta em 20 vezes o risco), crianças maiores de cinco anos ou perto da maturidade esquelética, lesão articular grave e presença de traumas múltiplos associados1,2,4,5,6,7,9,10,11.

É recomendado por alguns autores a drenagem da hematrose por forma a melhorar a vascularização para a cabeça femoral1,11. Após a redução, deve-se avaliar a congruência articular, comparando o espaço articular, a lateralização da cabeça e a quebra na linha de Shenton com o lado contra lateral2,9. A função do nervo ciático deve ser registrada antes e após a redução (lesão nervosa com incidência aproximada de 5% em crianças). O ramo peroneal é o mais afetado nas luxações posteriores (compressão direta).

A redução aberta está indicada quando ocorre fracasso na redução fechada, lesão do nervo ciático (ausência de melhoria com estudo eletromiográfico em quatro a seis semanas)1 e fratura acetabular, do colo ou da cabeça femoral que exijam tratamento cirúrgico1,2.

O tratamento após a redução permanece sem consenso1,2,7,8,9. Alguns autores sugerem gesso pelvipodálico por quatro a seis semanas para permitir cicatrização da cápsula. Outros indicam repouso no leito até alívio da dor, seguido de marcha com canadianas por quatro semanas1,2,5. Há referência noutro estudo a um período de repouso entre 3 a 8 semanas, necessário para resolução de sinovite e cicatrização de tecidos moles periarticulares1,8. Outro estudo indica tração cutânea e repouso estrito no leito três semanas seguido de mais 3 semanas de carga parcial1,5,8. No caso de luxações tardias ou negligenciadas pode ser necessária tração esquelética prévia à redução, seguida de tração cutânea por mais duas a três semanas1,4,8.

É recomendável que a anca seja avaliada por radiografias seriadas, durante pelo menos dois anos após a luxação1,9,11.

A reluxação é rara e associada a crianças abaixo de oito anos e crianças com laxidão ligamentar, especialmente em síndrome de Down1,10. As causas de reluxação estão associadas a rutura capsular ou falência da mesma, rutura de labrum ou fragmento osteocondrais intraarticular1,6. A ressonância magnética é um exame sensível e específico que permite avaliar as causas de instabilidade ou da reluxação e possibilita um adequado planeamento da abordagem cirúrgica1,2,6,7,9.

O prognóstico de luxações traumáticas da anca é apesar de tudo melhor em crianças do que em adultos3,8,10.

CASO CLÍNICO

Apresentamos o caso de uma criança de sexo feminino, 3 anos de idade com história de queda da cama, cerca de 50cm, correspondente a um trauma minor. Apresentava incapacidade funcional e dor localizada à anca direita, sem alterações neurovasculares. O membro inferior estava em flexão, rotação interna e adução de anca direita (Figura 1). O trauma teria ocorrido cerca de uma hora antes da chegada ao serviço de urgência.

Foram pedidos exames radiológicos da bacia e anca (Figura 2), tendo-se constatado uma luxação póstero superior da anca direita, de causa traumática. Foi encaminhada de imediato para o bloco operatório para redução incruenta da luxação, sob anestesia geral (Figura 3). A criança manteve-se sem alterações neurovasculares no membro. Foi internada com tração percutânea no membro inferior direito que manteve durante 10 dias.

Durante o internamento foi realizada uma RMN para avaliação de eventuais lesões associadas, constatando-se apenas imagens sugestivas de rotura muscular no tendão do obturador interno, grande adductor, quadrado femoral (Figura 4).

Na avaliação clinica no internamento, não foram detetados outros sinais sugestivos de hiperlaxidão noutras articulações. Ao 11º foi aplicado gesso pélvico-podálico que manteve por um período de 8 semanas.

À data da última observação em consulta (cerca dos 2 anos após a luxação), apresentava-se sem alteração do padrão de marcha, sem limitação das mobilidades, sem dores e sem alterações radiológicas aparentes (Figura 5).

DISCUSSÃO

A luxação traumática da anca nas crianças é rara e extremamente rara se menores de 5 anos de idade. No nosso caso tratou-se de uma luxação posterior que precedia os picos de incidência descritos na bibliografia. O género deste caso também não é concordante com a maioria da bibliografia existente. É consensual a necessidade de redução imediata de modo a evitar potenciais complicações.

No caso relatado o fato de não estar associado a traumas major, não apresentar lesões associadas no estudo por RMN e, sobretudo o fato de ter sido feita redução atempadamente, terão certamente contribuído para a boa evolução clínica e radiológica.

Devem ser utilizadas as mesmas manobras de redução dos adultos.

CONCLUSÃO

As luxações traumáticas da anca são verdadeiras emergências ortopédicas, sendo mandatória a sua rápida redução de modo a evitar as possíveis complicações.  As avaliações clínicas e radiológicas periódicas, por um período alargado são fundamentais para deteção precoce das mesmas.

Referências Bibliográficas

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