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Volume 26, Fascículo I   Artroplastia total do joelho em doente previamente patelectomizado: reconstrução patelar com técnica original utilizando autoenxerto de prato tibial
Artroplastia total do joelho em doente previamente patelectomizado: reconstrução patelar com técnica original utilizando autoenxerto de prato tibial
Artroplastia total do joelho em doente previamente patelectomizado: reconstrução patelar com técnica original utilizando autoenxerto de prato tibial
  • Artigo Original

Autores: Pedro Neves; Daniel Soares; Luís Costa; Ricardo Sousa
Instituições: Serviço de Ortopedia do Centro Hospitalar do Porto, Hospital de Santo António
Revista: Volume 26, Fascículo I, p67 a p74
Tipo de Estudo: Estudo Terapêutico
Nível de Evidência: Nível IV

Submissão: 2017-02-15
Revisão: 2017-11-27
Aceitação: 2018-02-04
Publicação edição electrónica: 2018-07-07
Publicação impressa: 2018-06-29

INTRODUÇÃO

A patelectomia é um procedimento que tem vindo a cair em desuso podendo, no entanto, ainda ter lugar em situações altamente selecionadas como fraturas muito cominutivas, osteomielite intratável ou patologia tumoral1. Não obstante, alguns doentes com sequelas de patelectomia no passado surgem com osteoartrose evoluída do joelho a necessitar de tratamento cirúrgico.

A prótese total do joelho (PTJ) promove um inegável beneficio no alívio da dor e melhoria da qualidade de vida dos doentes com gonartrose. A importância da rótula na cinemática do joelho assenta essencialmente na capacidade de aumentar a força de extensão quadricipital servindo de guia para o aparelho extensor3. Não é por isso de estranhar que os resultados funcionais após artroplastia do joelho com e sem patelectomia prévia sejam diferentes. De uma forma geral, os resultados são menos satisfatórios em doentes com patelectomia prévia2,4.

De forma a obviar esta limitação e otimizar a função do aparelho extensor foram descritas várias técnicas para a reconstrução patelar que incluem o uso de côndilo femoral, aloenxerto de aparelho extensor ou enxerto de crista ilíaca5-9. Os razoáveis resultados alcançados com estas técnicas não podem, no entanto, fazer-nos esquecer das desvantagens inerentes a cada uma delas. A utilização de enxerto da crista ilíaca acrescenta morbilidade na região dadora para além de oferecer uma pastilha óssea com formato longe do ideal14. O corte do côndilo femoral apresenta uma espessura demasiado fina6 e a utilização de aloenxerto associa-se a uma elevada taxa de complicações13.

O objetivo deste trabalho é apresentar o caso clínico de uma doente submetida a artroplastia total do joelho com reconstrução patelar utilizando uma técnica original para reconstrução da rótula com utilização de enxerto autólogo de prato tibial. Para além de descrever pormenorizadamente a técnica utilizada, serão apresentados os resultados clínicos e imagiológicos a médio prazo com quatro anos de seguimento.

DESCRIÇÃO DO CASO

Apresentamos uma doente do sexo feminino de 68 anos de idade, com antecedentes de patelectomia esquerda nove anos antes por osteoartrose patelo-femoral. Apresentava um quadro de gonalgia mecânica com cerca de cinco anos de evolução, com agravamento progressivo apesar do tratamento conservador instituído. Ao exame objetivo apresentava cicatriz cirúrgica longitudinal na face anterior do joelho, joelho varo, arcos de mobilidade ativo de 5º-100º e passivo de 0º-100º e força quadricipital de 4/5 (Medical Research Council scale). Apresentava discreta instabilidade no plano sagital e boa estabilidade no plano coronal.

Pré-operatoriamente registaram-se os resultados do Knee injury and Osteoarthritis Outcome Score (KOOS) - 30 pontos para a dor, 29 para sintomas, 32 para atividades de vida diária (AVD), 0 para desporto e recreação e 0 para qualidade de vida; o score Kujala foi de 39 pontos e o Hospital for Special Surgery Patella Score (HSS PS) foi de 40 pontos. O estudo radiológico revelava gonartrose grau IV na classificação de Kellgren-Lawrence (Figura 1).

Dada a limitação funcional e défice de força do aparelho extensor foi proposta a realização de artroplastia total do joelho com reconstrução patelar simultânea.

Técnica cirúrgica

Com o doente em decúbito dorsal e garrote na coxa, foi feita uma incisão anterior na linha média, através da cicatriz prévia e abordagem parapatelar interna clássica para exposição articular.

Após a remoção de ambos os ligamentos cruzados e meniscos foram realizados os cortes ósseos standard. O corte tibial foi realizado com o guia extramedular de modo a não danificar o prato tibial. O corte femoral distal foi realizado segundo a técnica intramedular normalmente utilizada e os restantes cortes com o bloco de cortes 4 em 1 da prótese selecionada (Zimmer Nexgen®).

O prato tibial externo foi então utilizado para criar uma neorótula com as dimensões da rótula contralateral utilizando como auxiliar à sua confeção o instrumental circular normalmente utilizado para realizar o corte da rótula. Criaram-se então três pares de túneis no enxerto: um central para fixação em localização central no tendão e dois paramedianos para reforço da fixação do tendão (Figura 2a).

No aparelho extensor, foi criada uma bolsa subsinovial para receber o enxerto (Figura 2b), tendo a localização em altura sido determinada pré-operatoriamente por comparação com o joelho contralateral. Já com os componentes de prova colocados, a tróclea do componente femoral foi marcada com azul de metileno e posteriormente realizado cycling do joelho para determinar o centro do tendão que seria depois utilizado como referência para localizar o centro do enxerto (Figura 2c).

Após a colocação e fixação do enxerto ósseo com sutura transtendinosa atravessando os túneis previamente efetuados, foi encerrada a bolsa subsinovial com fio reabsorvível (Figura 3). Foi então realizada colocação definitiva dos componentes finais cimentados nas extremidades tibial e femoral com polietileno de 14mm.
Todo o restante procedimento bem como a reabilitação pós-operatória seguiu o padrão institucional para prótese primária do joelho. Foi colocado um dreno intra-articular e encerrada a ferida cirúrgica por planos. Realizou profilaxia antibiótica com 2g de cefazolina na indução anestésica e 1g de 8/8h nas primeiras 24h de pós-operatório. Foi ainda prescrita heparina de baixo peso molecular que realizou durante 4 semanas.

A doente iniciou movimentos passivos imediatamente após a cirurgia e treino de marcha no segundo dia. Não foi realizado qualquer programa de reabilitação fisiátrica especifico.

RESULTADOS

A doente foi avaliada aos 3, 6 e 12 meses e anualmente desde então. Aos 12 meses apresentava arco de mobilidade passivo e ativo de 0-120º, força quadricipital de 5/5 na escala da Medical Research Council (Figura 4). Relativamente aos scores funcionais apresentava na escala KOOS 97 pontos para a dor, 89 para sintomas, 96 para AVD, 55 para desporto e atividades recreativas e 88 para qualidade de vida; no score Kujala apresentava 89 pontos e na HSS PS 100 pontos. Ao longo dos primeiros 12 meses de seguimento foi registado um aumento gradual destes mesmos resultados. Na última avaliação, decorridos já quatro anos após a cirurgia, podemos constatar que não houve deterioração dos resultados clínicos (Tabela 1).

O estudo radiológico mostrou um alinhamento neutro da prótese, sem sinais de descelagem e com bom posicionamento da neorótula que não apresentava sinais de migração (Figura 5). Registou-se uma redução de espessura de cerca de 3mm entre os 6 e os 12 meses. Como se pode verificar na Figura 6 a reabsorção após o primeiro ano foi mínima, não se verificando reabsorção adicional entre o terceiro e quarto ano pós-operatório.

Na última consulta de seguimento, 48 meses após a cirurgia, a doente mantém-se sem dor e demonstra grande satisfação com o procedimento cirúrgico realizado.

DISCUSSÃO

A patelectomia está associada à diminuição da eficiência do mecanismo extensor bem como a uma instabilidade anteroposterior do joelho. A força do quadricipital diminui cerca de 40% após este procedimento10 e a translação anterior do fémur durante a flexão está aumentada, especialmente se o ligamento cruzado posterior não for competente11.

Não existe consenso na literatura relativa ao tipo de prótese (não restritiva, semirestritiva ou restritiva) que deve ser utilizada em doentes com patelectomia prévia. A maioria dos autores defende o uso de implantes com algum tipo de restrição para prevenir a instabilidade anteroposterior12 ou, em alternativa, implantes com preservação do LCP. Ainda assim, o resultado da artroplastia nestes doentes será menos previsível do que naqueles com rótula patente15.

O tratamento ideal será aquele em que é restaurada de forma mais exata a anatomia do aparelho extensor. Alguns autores descreveram o uso de aloenxertos completos de aparelho extensor, que têm, no entanto, uma elevada taxa de complicações e infeção9,13. O uso de autoenxerto da crista ilíaca, como descrito por Buechel, parece ser atrativo tendo, no entanto a morbilidade associada ao local da colheita5. Para além disso existe uma incongruência natural entre o formato da pastilha óssea colhida e a tróclea femoral o que poderá aumentar a pressão sofrida em algumas áreas da neorótula. A reconstrução patelar com autoenxerto de fémur distal6 mostraram ter bons resultados sem a morbilidade associada à colheita de enxerto. No entanto, existe uma importante limitação na espessura do corte e consequente espessura do enxerto.

A opção pelo prato tibial externo justifica-se pela convexidade natural que, além da sua espessura e homogeneidade apropriadas, permitem a confeção de uma neorótula semelhante à original. O uso de prato tibial na bolsa subsinovial oferece por um lado uma superfície articular lisa no componente femoral graças ao seu revestimento cartilaginoso e por outro uma boa integração no tendão patelar graças a porção de osso esponjoso7.

Quatro anos após a cirurgia, não se identificam sinais de migração do enxerto. A reabsorção óssea era expectável, mas é de salientar que a mesma ocorreu sobretudo nos primeiros 12 meses e estabilizou depois. Durante o primeiro ano a espessura do enxerto diminuiu em cerca de 3mm o que está de acordo com a literatura existente que reporta uma reabsorção entre 2.3 e 9.0mm5,8. O grau de reabsorção não parece estar relacionado com os resultados funcionais alcançados5,8 e o mesmo aconteceu no caso apresentado.

Na última consulta de seguimento, quatro anos após a cirurgia, a doente apresenta-se clínica e radiologicamente estável. Este caso mostra os excelentes resultados com a melhoria da força do quadricipital e satisfação da doente. Esta técnica permite a reconstrução da normal anatomia do aparelho extensor sem morbilidade acrescida.

A patelectomia prévia não deve ser contraindicação para a realização de PTJ, não só pela possibilidade de alcançar bons resultados clínicos, mas também pela diversidade de opções existentes para a reconstrução patelar. O uso de prato tibial externo parece-nos uma excelente opção com morbilidade mínima. Para além dos bons resultados obtidos no imediato, a vantagem clínica demonstrou manter-se no a médio prazo com quatro anos de seguimento. Ainda que os resultados de um único caso não possam ser extrapolados ou assumidos como universalmente bons, muito provavelmente voltaremos a utilizar esta técnica em casos semelhantes no futuro.

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