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Volume 26, Fascículo II   Procedimento de Tikhoff-Linberg - Relato de Casos
Procedimento de Tikhoff-Linberg - Relato de Casos
Procedimento de Tikhoff-Linberg - Relato de Casos
  • Caso Clínico

Autores: Pedro Manuel Serrano; Francisco Leite; Marta Santos Silva; Vânia Oliveira; Pedro Cardoso
Instituições: Serviço de Ortopedia e Traumatologia, Centro Hospitalar do Porto, Hospital de Santo António
Revista: Volume 26, Fascículo II, p166 a p174
Tipo de Estudo: Estudo Terapêutico
Nível de Evidência: Nível V

Submissão: 2018-03-21
Revisão: 2018-05-10
Aceitação: 2018-05-13
Publicação edição electrónica: 2018-07-31
Publicação impressa: 2018-07-31

INTRODUÇÃO

O tratamento de tumores malignos da cintura escapular sempre foi um grande desafio para os ortopedistas oncológicos. As amputações interescapulo-torácicas, inevitavelmente culminam em resultados estéticos e funcionais pobres. A perda da mão, na sequência de um tumor da região do ombro, é devastadora, não só do ponto de vista físico, mas também psicológico. Surgem ainda, com relativa frequência, complicações decorrentes da amputação, como deiscência, seroma, neuroma ou dor fantasma.

Atualmente, graças a um aprofundamento do conhecimento sobre o comportamento das neoplasias músculo-esqueléticas, avanços nos tratamentos adjuvantes e técnicas de imagiologia, 95% destes casos, podem ser tratados com procedimentos que preservam o membro1. Em tumores volumosos, particularmente nos que apresentam extensão à articulação gleno-umeral, a amputação interescapulo-torácica, ainda é a única estratégia cirúrgica passível de assegurar uma resseção alargada, com margens adequadas. Ainda assim, em casos selecionados em que o tumor não invade o feixe neuro-vascular, uma variedade de ressecções menos radicais pode ser implementada.

A resseção interescapulotorácica foi realizada pela primeira vez por Tikhoff em 1922 e Linberg, relatou outros 3 casos em 1928. Desde então, a técnica, tem sido descrita como procedimento de Tikhoff-Linberg e as publicações de casos tratados desde então são escassas. Os autores recuperam a técnica tal como descrita por Linberg em 1928, analisando retrospetivamente 2 doentes submetidos ao procedimento de Tikhoff-Linberg.

CASO CLÍNICO

Caso 1

Doente de 64 anos, sexo masculino, em seguimento na consulta de Ortopedia por fratura do 1/3 distal da clavícula esquerda em tratamento conservador (Figura 1), com evolução para consolidação e sem alterações aparentes na consulta de 8 meses pós-acidente (Figura 2).

Apresentava aos 14 meses tumefação do ombro esquerdo, de novo, que ao estudo tomográfico se revelou volumosa massa de aparente origem na glenoide, já com extensão até ao músculo deltoide (Figura 3). A biópsia revelou tratar-se de condrossarcoma grau 3, sem outras lesões, pelo que se avançou para ressecção em bloco, através de um procedimento de Tikhoff-Linberg, que permitiu remoção da peça cirúrgica com margens livres (Figuras 4, 5 e 6).

Caso 2

Doente de 68 anos, sexo feminino, omalgia esquerda e tumefação escapular com 4 meses e 2 semanas de evolução, respetivamente. Tomografia computorizada revelou tumor intra-escapular esquerdo (Figura 7), cuja biópsia diagnosticou um sarcoma sinovial de subtipo intraósseo, uma entidade extremamente rara deste tipo de tumor13. O estadiamento confirmou tratar-se de lesão única. Foi então realizada a ressecção em bloco, através do procedimento de Tikhoff-Linberg (Figuras 8-10), com especial cuidado para incluir todo o trajeto da biópsia realizada previamente.

Com follow-up médio de 64 meses, ambos os doentes estão vivos à data da última consulta, sem recidiva local nem metastização à distância. Registou-se uma infeção superficial da ferida operatória, tratada com antibioterapia.

Ambos os doentes se encontram satisfeitos pela possibilidade de preservarem o membro e mantêm função normal da mão e antebraço, com função razoável do cotovelo, tal como se pode verificar pelas imagens correspondentes ao caso 2 (Figura 11). O score funcional médio da Musculoskeletal Tumour Society (MSTS14) foi de 75%.

DISCUSSÃO

Sarcomas de alto grau da cintura escapular tradicionalmente eram submetidos a amputação/desarticulação. Tumores extensos que envolvem a articulação gleno-umeral, mas ao mesmo tempo preservam o feixe neuro-vascular são raros, mas representam uma oportunidade única de preservação do membro. Esta opção pode revelar-se fundamental para a qualidade de vida, função, dever social e imagem dos doentes, relativamente a si próprio e a terceiros.

De acordo com a classificação proposta por Malawer em 19912, as ressecções da cintura escapular são divididas em 6 tipos (Figura 12) (baseando-se nas estruturas ósseas envolvidas e o nível de ressecção das mesmas) e são: intra-articulares (tipos 1-3) ou extra-articulares (tipos 4-6). Teoricamente, estas resseções, permitem uma função normal da mão e antebraço e função razoável do cotovelo1.

Uma das ressecções contempladas consiste na escapulectomia total, associada a uma ressecção parcial da clavícula e extremidade proximal do úmero (tipo 4), historicamente descrita como um procedimento de Tikhoff-Linberg3. Até 1991, muitas variações técnicas foram sendo propostas4-6 e o termo tem sido liberalmente utilizado, para ressecções compatíveis com todos os 6 tipos de ressecção de Malawer2.

Estas ressecções da cintura escapular são exigentes, não só do ponto de vista do rigor técnico, concentração do cirurgião e inclusive, do ponto de vista de exigência física para a equipa cirúrgica.

São cirurgias longas, em doentes imunossuprimidos e com uma taxa de complicações global reportada até 74%1. No entanto, a técnica de Tikhoff-Linberg associa-se a uma taxa de complicações significativamente mais baixa, quando comparada com outras de reconstrução estrutural. Este dado, torna-se especialmente relevante, perante doentes oncológicos, com maior risco de infeção, amplamente documentado11,12. Os resultados referentes à técnica original, ainda que, com resultado estético sub-ótimo, são encorajadores em termos funcionais, como reportado na literatura, em séries e relatos de caso, permitindo um grau de satisfação elevado e consistente pela manutenção do membro7-10.

Jensen e Johnston relataram uma série de 19 ressecções do úmero proximal e subsequente artroplastia reconstrutiva15. Nesta série, os 8 doentes com estadiamento IIB realizaram resseções tipo 1 de Malawer (com preservação da glenoide). Verificou-se recorrência em 2 destes doentes.

Meller e colaboradores registaram 1 caso de recorrência em 10 resseções semelhantes, concluindo que as resseções tipo 1, em tumores com estadiamento IIB, é demasiado arriscada no que diz respeito ao controlo local da doença9.

Ueda e colaboradores referem que a recidiva local após cirurgia inadequada não afetou negativamente o prognóstico13,17. De um grupo de 10 doentes, 5 com estadiamento IIB, foram submetidos a resseção tumoral prévia ao procedimento de Tikhoff Linberg e os restantes 5 não. Em cada grupo, houve registo de metastização pulmonar em 3 doentes. Na série publicada por Capanna e colaboradores verificou-se recorrência local com metastização pulmonar concomitante em 1 de 24 doentes, 14 dos 24 encontravam-se livres de doença após um follow-up médio de 22,5 meses5.

O factor que mais afeta o resultado funcional prende-se com a resseção do mecanismo abdutor para assegurar margens adequadas. A abdução depende da contração do músculo trapézio e deslizamento da omoplata sobre a parede torácica dorsal.

No estudo levado a cabo pela Musculoskeletal Tumor Society (MSTS), 87 doentes foram avaliados após várias resseções por tumores do membro superior14. O score médio foi de 68%. Estes resultados funcionais foram também semelhantes aos de Meller e colaboradores16 que relataram um score de 72% após 10 resseções de Tikhoff-Linberg e aos de Gibbons et al.18 após escapulectomia total (score MSTS médio de 71,6%).

Os resultados funcionais após resseção de Tikhoff-Linberg, baseiam-se na atividade, dor e fatores psicológicos subjetivos, sendo claramente superiores aos resultados pós amputação/desarticulação do membro. A aplicação destes scores funcionais a doentes submetidos a amputação iria consistentemente resultar em valores baixos, sendo que um score de 0 (zero) seria atribuído a 3 dos 6 parâmetros avaliados, que se relacionam diretamente com a função da mão (posição da mão, destreza e capacidade de levantar objetos).

Apesar das complicações inerentes, as ressecções escapulares sub-totais aqui abordadas e, em particular a técnica de Tikhoff-Linberg, representam, na opinião dos autores, uma arma valiosa para ortopedistas oncológicos, com resultados funcionais naturalmente superiores à amputação e que otimiza a qualidade de vida dos doentes sem compromisso da sobrevida.

Apesar de a literatura ser limitada, vários autores demonstraram que as amputações da cintura escapular, não têm benefício em termos de sobrevida, se comparadas com técnicas que preservam o membro7. Os critérios para escolha da técnica cirúrgica devem basear-se na extensão da lesão e sua relação com os feixes19.

É evidente que, a realização de cirurgias radicais, como a desarticulação interescapulotorácica, é tecnicamente menos exigente, comparativamente a técnicas preservadoras do membro, como o procedimento de Tikhoff-Linberg e, segundo Clark e Thomas, permite resultados oncológicos equivalentes em tumores passíveis de ambas as técnicas19.

CONCLUSÃO

As cirurgias radicais continuam indicadas para tumores localmente avançados da cintura escapular, sobretudo quando há envolvimento do feixe neurovascular. Procedimentos cirúrgicos menos agressivos, com o mesmo objetivo curativo, mas com melhor resultado funcional e estético são ponderados em casos selecionados.

Os autores defendem que não se deve deixar de propor uma técnica menos agressiva, de preservação do membro, para o doente, por mero desconhecimento técnico, complexidade do procedimento, ou outros motivos, sendo esta, igualmente eficaz do ponto de vista oncológico e com resultados clínicos e funcionais potencialmente superiores. O ganho de experiência permite minimizar riscos de complicações.

Este trabalho reflete a nossa experiência com uma técnica cirúrgica exigente, que proporcionou aos doentes um resultado funcional que otimiza a sua qualidade de vida e permite execução e adaptação às atividades da vida diária, sem comprometer a sobrevida e progressão local da doença.

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