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Volume 26, Fascículo III   Volumoso quisto acromioclavicular como apresentação invulgar de rotura massiva da coifa dos rotadores
Volumoso quisto acromioclavicular como apresentação invulgar de rotura massiva da coifa dos rotadores
Volumoso quisto acromioclavicular como apresentação invulgar de rotura massiva da coifa dos rotadores
  • Caso Clínico

Autores: Samir Karmali; Nuno Barbosa; Jorge Teixeira Ramos; João Almeida; João Cardoso; André Barros; Bárbara Rosa; Ana Lopes; Daniel Sá da Costa; Diogo Silva Gomes; Pedro Quinaz Neto
Instituições: Serviço de Ortopedia, Hospital de Vila Franca de Xira
Revista: Volume 26, Fascículo III, p260 a p266
Tipo de Estudo: Estudo Terapêutico
Nível de Evidência: Nível V

Submissão: 2018-05-11
Revisão: 2018-05-27
Aceitação: 2018-07-01
Publicação edição electrónica: 2018-10-23
Publicação impressa: 2018-10-23

INTRODUÇÃO

Os quistos sinoviais da articulação acromioclavicular (AC) são entidades raras, podendo ocorrer associadas a artrose AC ou como consequência da rotura massiva da coifa dos rotadores. Com a apresentação de caso de um volumoso quisto AC, os autores pretendem discutir a sua etiologia, abordagem diagnóstica e terapêutica.

RELATO DE CASO

Homem, 81 anos, dextro, referenciado à consulta de Ortopedia por tumefação da região superior do ombro direito, indolor e de aumento progressivo nos últimos 2 anos, apenas com queixas referidas à fricção com o vestuário. Clinicamente com massa mole, de consistência elástica, com flutuação e sob tensão, sem sinais inflamatórios e de dimensões aproximadas de 10x7cm (Figura 1). O arco de mobilidade do ombro era de abdução de 90 graus, antepulsão de 90 graus, rotação externa de 30 graus e rotação interna ao nível de L5; apresentava teste de Jobe positivo, belly-press negativo e lag em rotação externa negativo. O exame radiológico simples do ombro evidenciou alterações degenerativas da articulação AC e gleno-umeral com migração superior da cabeça umeral e diminuição do espaço subacromial (Figura 2-A). Realizou ecografia de partes moles revelando massa quística, na dependência da articulação AC; a ressonância magnética (RM) confirmou o volumoso quisto sinovial bem delimitado, de 8x5x8 cm superiormente à articulação AC e evidenciou rotura massiva da coifa dos rotadores com atrofia marcada e infiltração adiposa dos corpos musculares do supra e infra-espinhoso (Goutallier grau III), bem como moderada omartose (Figura 2-B,C,D,E). Após discussão das opções terapêuticas e atendendo às expectativas do doente (apenas com desconforto causado pela tumoração, sem dor e com mobilidades satisfatórias para a sua atividade diária) foi submetido a excisão marginal do quisto sinovial e cleidectomia parcial externa (Mumford), sem intercorrências (Figura 3). Intraoperatoriamente, confirmou-se ausência de cobertura da cabeça umeral por rotura irreparável da coifa póstero-superior. O resultado anatomopatológico confirmou o diagnóstico de quisto sinovial. Às 2 semanas pós operatório verificou-se deiscência da ferida cirúrgica com extravasamento de aparente liquido sinovial; foi isolado no mesmo staphylococcus aureus multisensível, concomitante a elevação analítica dos parâmetros inflamatórios (proteína C-reativa de 27,26 mg/dl e velocidade de sedimentação 150 mm). Foi realizada lavagem e desbridamento cirúrgico, tendo sido aplicado penso em vácuo; instituída antibioterapia dirigida com flucloxacilina durante 6 semanas, com normalização dos parâmetros inflamatórios e encerramento da ferida (Figura 4). O doente cumpriu treino de reabilitação funcional. Atualmente com 1 ano pós operatório, sem sinais de recidiva, sem dor e com mobilidades articulares sobreponíveis ao pré-operatório, mantendo-se satisfatórias para a sua atividade de vida diária.

DISCUSSÃO

Os quistos da articulação AC são infrequentes e pouco abordados na literatura, existindo pouco mais de 50 casos publicados desde a sua primeira descrição por Craig em 19841,2. A sua etiologia permanece por esclarecer ainda que, consensualmente se possam estabelecer dois tipos de quistos: do tipo 1, menos frequentes, aqueles que estão confinados à articulação AC, com coifa íntegra, geralmente decorrentes de traumatismo isolado (incluindo luxação) ou de repetição, doença metabólica ou infecciosa; e os do tipo 2, mais frequentes, estando associados a omatrose com rotura massiva da coifa dos rotadores (artropatia da coifa)3,4. Nestes últimos, o processo inflamatório artrósico e instabilidade mecânica gleno-umeral cursam com hiperprodução de líquido sinovial. Adjuvados pela migração superior da cabeça umeral que erode a região inferior do complexo ligamentar da articulação AC, resultam na passagem de grandes quantidades de líquido entre estas duas articulações (descrita por Craig como o sinal do “geyser”), dando origem ao quisto sinovial3,5,6. Ainda que historicamente a artrografia e a ecografia tenham tido um papel importante, a RM é indispensável nos dias de hoje na caracterização do quisto e das lesões associadas nomeadamente da coifa dos rotadores3,6. Atendendo à sua raridade, o  tratamento permanece controverso, no entanto deve ser dirigido à causa subjacente, quando possível3,7. Enquanto para os quisto do tipo 1, é advogada a cleidectomia parcial externa e bursectomia, para os quistos do tipo 2, o tratamento deve ter em conta o processo artrósico e a rotura massiva da coifa. A aspiração do quisto geralmente resulta numa elevada taxa de recorrência, pelo que não é recomendada3,8. Quando possível a reparação da coifa, esta deve ser realizada concomitantemente com a excisão do quisto. Perante uma artopatia da coifa, o tratamento varia mediante das queixas, status funcional e comorbilidades do doente. Assim, além da excisão do quisto, podem ser realizados a cleidectomia parcial externa (como no presente caso), bem como artrodese da AC, hemiartroplastia, atroplastia total e artoplastia invertida do ombro3,7. No presente caso, o doente apresentava mobilidades articulares ativas que eram adequadas à sua exigência funcional, sem queixas álgicas associadas, pelo que se optou apenas pela excisão e cleidectomia parcial externa.

CONCLUSÃO

O caso vem alertar para a ocorrência de quistos sinoviais da articulação AC como apresentação invulgar de artropatia das coifa dos rotadores. A associação de outros gestos cirúrgicos à excisão do quisto não é consensual, devendo ser adequadas a cada caso individual.

Referências Bibliográficas

1. Craig EV. The geyser sign and torn rotator cuff: Clinical significance and pathomechanics. Clin Orthop Relat Res. 1984; 191: 213-215

2. Craig EV. The acromioclavicular joint cyst: An unusual presentation of a rotator cuff tear. Clin Orthop Relat Res. 1986; 202: 189-192

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4. Neer II CS, Craig EV, Fukuda H. Cuff-tear arthropathy. J Bone Joint Surg Am. 1983; 65: 1232-1244

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6. Marino AJ, Tyrrell PN, El-Houdiri YA, Kelly CP. Acromioclavicular joint cyst and rotator cuff tear. J Shoulder Elbow Surg. 1998; 7: 435-437

7. Le Huec JC, Zipoli B, Schaeverbeke T, Moinard M, Chauveaux D, Le Rebeller A. Acromio-clavicular joint cyst. Surgical treatment. Acta Orthop Belg. 1996; 62: 107-112

8. Cho CH. Complicated acromioclavicular joint cyst with massive rotator cuff tear. Am J Orthop (Belle Mead NJ). 2014; 43 (2): 70-73

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