DISCUSSÃO
O extravasamento de fluido durante artroscopia da anca é raro (0,16%), mas uma complicação potencialmente fatal1. Literatura recente reportam o sexo feminino como potencial factor de risco, enfatizando a importância da detecção precoce desta complicação4. Ainda mais raro é o extravasamento de fluido para a cavidade torácica, com apenas 3 casos reportados2,5.
Os sinais mais comuns são distensão abdominal e hipotermia, sendo que ambos devem ser cuidadosamente monitorizados durante a cirurgia6. A utilização de panos esterilizados transparentes permitem uma avaliação repetida do abdómen, devendo a cirurgia ser interrompida em caso de suspeita de extravasamento de fluido4.
A confirmação do diagnóstico de extravasamento de fluido para a cavidade intra-abdominal pode ser realizado quer por ecografia quer por tomografia axial computorizada. Haskins SC, enfatiza o facto de a presença de fluido na cavidade abdominal ser um achado muito comum após artroscopia da anca (16%). No entanto o extravasamento sintomático é raro e a sua detecção precoce é crucial para evitar os riscos associados7.
Vários estudo reportam a baínha do psoas-ilíaco como trajecto mais provável para o extravasamento, bem como uma extensa capsulotomia associada a tempo operatório prolongado e pressão elevada da artrobomba1,8. Existe ainda a suspeita de que factores dependentes do doente, como particularidades anatómicas, possam contribuir pelo menos parcialmente para este fenómeno.
Ekhtiari S, et al enfatiza que uma cavidade pélvica ginecóide associada a maior elasticidade dos tecidos tem sido mencionada como eventual responsável pelo maior número de casos de extravasamento no sexo feminino4. Os casos apresentados têm em comum o facto de ambos os doentes serem do sexo feminino e terem sido submetidas a cirurgia abdominal previamente. Os autores hipotetizam que a cirurgia abdominal prévia possa ter contribuído
para a ocorrência desta complicação graças à alteração da elasticidade dos tecidos bem como por criar uma facilidade de comunicação entre os espaços intra e retroperitoneal facilitando o extravasamento. Esta hipótese terá de ser investigada com estudos anatómicos com modelos animais ou cadáver.
Em ambos os casos a complicação foi diagnosticada após o término da cirurgia, este facto ilustra a importância de um equipa extremamente atenta (cirurgião e anestesista) para prevenir esta complicação potencialmente fatal. Isto é particularmente importante durante a fase de curva de aprendizagem, quando os tempos cirúrgicos são mais longos e a taxa de complicações mais elevada9. Sendo uma complicação com potencial catastrófico, qualquer artroscopia da anca deve antecipar uma resposta hospitalar adequada, incluindo possibilidade de Cuidados Intensivos e imagiologia.
Em ambos os casos verificou-se uma boa resposta à terapeutica diurética endovenosa, sem necessidade de paracentese. No caso 2 foi realizada toracocentese considerando o volume do derrame e a consequente atelectasia. Doentes cuja evolução leve a um síndrome compartimental abdominal devem receber drenagem percutânea e eventualmente uma laparotomia emergente10.
Apesar de potencialmente fatal, os autores não relatam influência no outcome final da cirurgia da anca, dado que ambos os casos apresentam um nonarthritic hip score favorável aos 6 meses de seguimento.