DISCUSSÃO
A lesão do tendão calcâneo é frequente, costumeiramente relacionada às práticas esportivas e a importância de sua reconstrução para retorno das atividades normais do pé e tornozelo é indiscutível, sendo ainda muito discutidas as técnicas cirúrgicas, com controvérsia quanto à técnica mais adequada. No presente estudo optou-se por comparar uma técnica aberta, bastante tradicional, associada a um reforço tendíneo, com uma técnica minimamente invasiva com enxerto, que tem por objetivo agregar menor morbidade.
Neste trabalho verificou-se que a faixa etária mais acometida estava entre 40 e 50 anos de idade; maioria sexo masculino, talvez pela maior relação com esporte e atividades com maior morbidade, indo ao encontro da literatura.
A técnica cirúrgica utilizando tendão semitendíneo para reparo de lesões do tendão calcâneo vem mostrando bons resultados11, o que pode ser confirmado em nosso estudo, inclusive para pacientes com lesões maiores que 6 cm14, mas quais o tendão fibular curto mostra-se insuficiente em tamanho.
No presente estudo dois pacientes foram submetidos à reconstrução aberta do tendão calcâneo utilizando uma associação do tendão do grácil ao semitendíneo, por terem distancia entre os cotos superior a 10 cm, além de ser uma lesão crônica, sem diferença funcional para os pacientes submetidos à reconstrução apenas com semitendíneo, confirmando estudos que comprovam não ser necessária a combinação entre tendões semitendíneo e grácil, pois o tendão semitendíneo garante a força necessária3,14.
O tratamento das lesões já cronificadas, costumeiramente por negligência, exigem um tratamento cirúrgico mais complexo, podendo levar a maiores complicações do envoltório de partes moles3,14. Neste estudo, as complicações mais graves de partes moles ocorreram nos pacientes com lesões cronificadas e tabagistas, com maior distancia entre cotos, que foram tratadas cirurgicamente com técnica aberta associada a reforço de tendão semitendineo.
As técnicas minimamente invasivas foram desenvolvidas para minimizar problemas com o envoltório de partes moles, por causarem menor agressão cirurgica14,15. Primeiramente foi desenvolvida a técnica minimamente invasiva usando reforço com tendão fibular curto16, sem perdas funcionais eversoras importantes ao nível do tornozelo17, mas sem um gap maior que 6 cm no intraoperatório, mesmo com flexão máxima do tornozelo e tração máxima dos cotos14,18. Nesse caso, o uso do reforço com fibular curto pode não ser suficiente e como o tendão semitendíneo é robusto e forte, é recomendado para essas situações3,14. Neste estudo fez-se a técnica minimamente invasiva para pacientes com distancia menor do que 6 cm, optando-se por técnica aberta com reforço de semitendineo nas lesões com maior distancia3.
Estudos sugerem maiores taxas de reruptura e lesão neurológica, especialmente do nervo sural, da técnica minimamente invasiva, comparativamente à técnica aberta19, no presente estudo ocorreram dois casos de neuromas por aderência, resolvidos por completo com fisioterapia, sem nenhum caso de reruptura, pois foi utilizado um enxerto de tendão fibular curto.
Nas rupturas crônicas, a pele se retrai ao longo das semanas e se mantém nessa posição. Na cirurgia aberta tende-se a tracionar essa pele para acomodação da sutura do tendão, podendo causar déficit vascular local20.
Após a cirurgia o pé foi mantido em tala gessada com dez graus de flexão plantar para proteção da sutura, além de prevenção de rerupturas agudas14, sabendo que o suprimento sanguíneo mantém-se normal em até 20 graus de flexão plantar, apresentando progressiva redução quanto maior o grau de flexão14,20.
A preservação de um bom estado de partes moles através da técnica minimamente invasiva é claramente uma grande vantagem no tratamento das rupturas do tendão calcâneo, em especial as lesões crônicas14,20. Entretanto, é um tratamento que exige maior técnica e conhecimento do procedimento por parte do cirurgião. É uma boa opção de técnica para pacientes com propensão a complicações de pele, tais como diabéticos e vasculopatas. A escolha da técnica não pode se basear apenas na demanda do paciente, mas também nas características da lesão, condições da ruptura e achados intraoperatorios3.
As limitações deste estudo se devem à casuística pequena e uma comparação feita utilizando tendões diferentes, tratamento de lesões crônicas com distancia entre os cotos maior do que 6 centímetros e lesões agudas com distancia menor do que 6 centímetros, além disso, a literatura é ainda bastante limitada em relação aos casos pela técnica minimamente invasiva com uso de enxerto como reforço.